Musas Coletivo de Moda: quando a moda, educação e sustentabilidade se encontram

Musas Coletivo de Moda: quando a moda, educação e sustentabilidade se encontram

Transformar resíduos em novos produtos, conhecimento em autonomia e
encontros em novas possibilidades. Essa foi a proposta do Musas Coletivo de Moda,
projeto realizado em Rio do Sul (SC) que utilizou a moda como ferramenta de educação
para a sustentabilidade.

Desenvolvido entre setembro de 2022 e abril de 2023, o projeto foi executado pela Balseiro
Associação Sem Fins Lucrativos, com financiamento do Fundo para a Infância e Adolescência (FIA) de Rio do Sul. A iniciativa foi direcionada a adolescentes de 13 a 18 anos, estudantes de escolas públicas, e propôs uma experiência de educação não formal que aproximou teoria prática e a criatividade.

Moda como ferramenta de aprendizagem
A moda foi escolhida como ponto de partida por fazer parte do cotidiano e do imaginário das participantes. A partir dela, foi possível abordar temas como identidade, consumo, descarte, criatividade, meio ambiente e possibilidades de geração de renda.
O plano de trabalho foi dividido em 12 encontros de quatro horas. Primeiro, as participantes tiveram contato com conteúdos sobre moda, sustentabilidade, história do calçado e construção de referências. Depois, passaram às atividades práticas de criação e produção. A etapa final foi dedicada à comunicação dos resultados, com editorial fotográfico e fashion film.

Do resíduo à criação
Um dos principais desafios do projeto foi transformar o conceito de sustentabilidade em uma experiência concreta. Para isso, as participantes criaram calçados utilizando resíduos industriais de jeans, material escolhido por sua forte presença na indústria têxtil.

O processo trabalhou princípios de reaproveitamento e upcycling: em vez de considerar o resíduo como fim de ciclo, ele foi utilizado como matéria-prima para novos produtos. As adolescentes puderam experimentar técnicas como trançados, bordados, desfiados e costura. Para muitas delas, foi também o primeiro contato com uma máquina de costura.

Sustentabilidade nas dimensões social, ambiental e econômica
O Musas foi estruturado a partir de três dimensões da sustentabilidade. Na dimensão social, o objetivo foi fortalecer vínculos, estimular a cooperação e criar um coletivo. Na dimensão ambiental, o foco esteve na conscientização sobre os impactos da moda e no reaproveitamento de resíduos. Já na dimensão econômica, o projeto buscou apresentar técnicas e conhecimentos que possam contribuir, no futuro, para autonomia e geração de renda.

Essas dimensões se conectaram ao longo de todo o processo: aprender uma técnica também significou perceber seu potencial econômico; trabalhar em grupo envolveu troca, apoio e convivência; transformar resíduos em produtos mostrou, de forma prática, que materiais descartados podem voltar a ter valor.

Da criação para o editorial
Na etapa final, cada participante tornou-se modelo do próprio calçado que havia criado. Com maquiagem, penteados, roupas em jeans, fotografia e produção audiovisual, foi realizado um editorial de moda e um fashion film.

Mais do que registrar os produtos, o editorial fez parte da experiência educativa. Ele colocou as participantes no centro da narrativa e valorizou o percurso construído durante os encontros. O artigo que documenta o projeto destaca a alegria e a satisfação percebidas durante essa etapa, além da aprovação das participantes em relação aos calçados, às fotografias e ao vídeo produzido.

Muito além de produzir um sapato
Os resultados do projeto mostram que a experiência foi além da produção de uma coleção. O processo contribuiu para a formação de vínculos, para a valorização de materiais descartados e para a percepção de que o fazer manual e a criatividade podem abrir novas possibilidades.

Na dimensão ambiental, as participantes puderam visualizar como resíduos de jeans podem ser transformados em produtos úteis. Na dimensão social, o convívio e a construção coletiva fortaleceram relações. E, na dimensão econômica, o aprendizado de técnicas manuais apresentou caminhos possíveis para autonomia e geração de renda.

O relato também registra mudanças percebidas na autoestima e na forma como algumas
participantes passaram a se apresentar, se comunicar e se posicionar no grupo. Esses aspectos reforçam a ideia de que a moda pode assumir um papel educativo quando utilizada de forma crítica, inclusiva e conectada à realidade das pessoas.

A experiência do Musas mostra que sustentabilidade pode ser ensinada de forma prática:
quando um resíduo ganha nova função, quando uma técnica se transforma em
conhecimento e quando a criação coletiva amplia a percepção sobre o potencial.

Moda também pode ser transformação
Ao unir educação, moda e sustentabilidade, o Projeto Musas apresentou outra forma de olhar para o setor: não apenas como consumo ou tendência, mas como espaço de aprendizado, expressão, inclusão e responsabilidade. Mais do que ensinar a fazer moda, a iniciativa buscou incentivar uma maneira mais consciente, colaborativa e criativa de produzi-la e vivê-la.


Sobre o estudo: o Projeto Musas foi apresentado no artigo científico “Educação para a sustentabilidade: relato do projeto Musas Coletivo de Moda”, de Ana Suelen Pisetta e João Dolzan Júnior, publicado na revista Transverso.

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